A peça é criada a partir de uma narrativa mítica cantada dos Marubo, povo da família Pano e habitante da Terra Indígena Vale do Javari (Amazonas).
Fui assistir 2 vezes a peça. Na primeira vez fiquei com atenção desviada num tipo de apresentação inédita pra mim, com uma iluminação fantástica, numa peça onde ficamos no meio do “palco” e onde é explorado nossas sensações e percepções exteroceptivas e proprioceptivas e convidados a submergir no mundo mágico da peça representada.
Isso me desviou do Foco principal que era um conto belíssimo e muito rico em ensinamentos, difíceis de se ver no primeiro momento.
Antes de analisar alguns itens da peça achei melhor contar o que eu percebi e entendi da peça :
A peça se inicia com a historia de um page a beira da fogueira onde ele cria a sua própria mãe e ao mesmo tempo ele percebe que tem o poder também de mata-la quando ele quiser, e se inicia a historia de Maya, nesse momento da peça Maya e Velho Homem se apresentam desde a sua criação onde os personagens vão se construindo aos poucos, observamos um trabalho de corpo e a música que nesse momento ja conta justamente essa criação que vais sendo um molde com fígado pulmão, útero, rins, coração e todos orgãos ate chegar na máscara que representa justamente a face, que eu diria que não é apenas a face do rosto mas também o “EU” da Índia Maya e do Velho Homem ali se criam Velho Homem e Maya corpo mente e alma que está gravida inclusive do “Velho Homem” o page.
Nesta fase da peça temos a apresentação dos personagens.
Maya dança e durante uma tempestade aparece o Deus Raio que a Seduz e pela música cantada por ela ja se observa que a mesma ja se sente limitada pelo proprio corpo e vida terra e quer mais, simbolicamente observo que a mesma ja adquiri a consciência divina que vai além de um corpo , a mesma foi seduzida pela Luz (é um cantico indigena e fiz uma interpretaçao aqui mais mistica e com base no espiritualismo oriental, que achei bem propicio de um povo simples que sao ligados a verdadeira essência da mãe natureza) Nesse momento seu corpo é atingido ao meio pelo Raio onde sua alma é raptada pelo Deus Raio que a leva embora e apenas deixa seu corpo .
Velho Homem inconformado com isso avisa os parentes para não queimar o corpo e inicia o ritual do cha com o propósito de deixar o corpo e poder ir atras de Maya, nesse momento da peça somos levados ao som da musica e ao bater forte no chão a tomar um cha (oferecido pela produção) e junto com o page e iniciar a viagem com ele na busca por Maya.
No primeiro momento achei que a intenção era apenas fazer através de nossas sensações que sentíssemos estar dentro da peça, mas percebo agora que vai alem disso, era para sentirmos justamente que o personagem havia abandonado o corpo e termos as sensações dele, onde a visão do corpo não mais importava e sim o que importava eram nossas sensações pois a peça é uma lição de desapego inclusive do nosso próprio corpo. O importante são as nossas sensações o que a gente vê pode ser enganoso ou mentira mas as sensações são verdadeiras.
O Velho Homem inicia uma viagem ate o Mundo Raio onde esta sua esposa Maya e observei bem os reinos por onde ele passa, a peça veio de um conto indígena que é transmitido aos Xamas das tribos responsáveis pela cosmologia e mitologia indígena, um povo que respeita muito a interação do homem e natureza, alem de uma espiritualidade. A jornada se inicia pelo povo arvore que simbolicamente a arvore representa justamente a nossa ligação com a terra e parentes, povo brisa a brisa simbolicamente representa nossa tranqüilidade e paz, o povo água a água representa a vida a pureza o nosso interior a purificação e os cânticos falam nela como correnteza que flui sem retorno que nos circunda e não param nunca de correr, continua assim como a linha da vida , o povo mentira que representa as mentiras da vida as nossas ilusões , o povo podre que simbolicamente o que é podre e transitório estraga ou seja representa justamente que nada é eterno , tudo tem um fim, o povo violência que representa justamente o nosso ego que quer simbolicamente sempre cobrir a nossa luz representa o nosso egoísmo tanto é que só vai ajudar o velho homem em troca do coração que representa o amor o amor divino a nossa luz, o povo cegueira que da a dica de onde pode estar Maya e este povo representa muito que podemos ver através dos olhos da alma e não do corpo basta sentirmos o povo nuvem a nuvem representa os nossos pensamentos é passageira não pode ser tocado apenas visto e passageira.
Por fim ele chaga as cordas suspensas do céu e todos retiram as vendas, pensem bem para chegarmos ao reino da luz e passado por todo esse aprendizado ja podemos ver novamente só que agora com outros olhos.
Tem um recurso fantastico na peça que é o personagem Homem Velho representado por uma marionete subindo pelas cordas, ali vi uma transferência de um personagem para um boneco onde os movimentos dele coordenado por 2 atores resultavam na acão do personagem subindo as cordas, nao era Stanislavski mesmo.
O velho homem encontra Maya ja diferente sem a mascara inicial sem a lembrança dele e de sua outra vida ja com 2 filhos, sem aceitar que havia perdido Maya ele pede ajuda ao povo violência e em troca do coração, o ajuda a matar o Deus Raio numa luta sangrenta cheia de efeitos, que mostra simbolicamente a luta entre o bem e o mal dentro de cada um de nós. Após matar o Deus Raio Maya ja sem saber o que fazer e sem ter onde ficar volta com o Velho Homem e passa por todos os reinos a ao chegar na terra e soltar a mão de sua esposa ela retorna para O mundo Raio ele volta mais 2 vezes e faz o mesmo trajeto ate olhar realmente pra ela e ver que saia vermes por sua boca e saia fumaça pelo seu nariz o Velho Homem solta sua mão e a deixa ir, restando-lhe apenas a caveira do que outrora fora a sua amada Maya
Velho Homem corre para tirar satisfações com seus parentes que haviam queimado o corpo de sua mulher e pergunta aos seus parentes porque queimaram e eles respondem que o corpo dela ja estava apodrecendo que ela “ja havia feito a sua escolha” e o Velho Homem termina a peça ja consciente da sua lição de desapego com a frase “O que não se pode pegar deve se deixar” e termina a peça com os resto mortais dela terminando de queimar no fogo. Na segunda vez que fui ver estava chovendo e o som da chuva, junto com o barulho da fogueira e o fogo se apagando teve um efeito não só visual e auditivo mas também gerou um efeito emocional de se pensar e de se refletir.
Temos na peça um conceito novo de obra literária onde temos na mesma peça os 3 gêneros épico, lírico e dramático a peça possui um estilo diferente do Stanislavski onde o ator sai por várias vezes so “se”mágico indo de narrador a personagem num mesmo instante, reparei muito isso na segunda vez que fui e observei bastante as expressões nos rosto deles vi bem como a expressão nos rostos deles mudava de personagem para narrador, inclusive conversei depois com o Ator que interpreta o Velho Homem e me falou que foi difícil no começo isso, mas que trabalharam bastante isso no laboratório da peça anterior sendo mais fácil na peça Raptada pelo Raio 2.0.
Observei como as expressões corporais expressavam nas danças uma poesia e uma harmonia, eles utilizaram de tudo para construir esta peça sons e musicas que narravam a historia e as vezes nos remetiam ao mundo da historia com os olhos fechados.
O objetivo de Homem Velho que era no inicio de ter a sua esposa gravida ao seu lado que muda com o acontecimento de sua morte e rapto de sua alma pelo Deus Raio, e vemos todas as ações necessárias para ele alcançar seu objetivo que começa com a fabricação do chá para ele adormecer e ir em alma atras de sua amada percorrendo reinos e reinos até chegar no Mundo Raio e matar o Deus Raio tendo um fim trágico para sua busca, mas de um aprendizado grande para ele.
Precisei ver 2 vezes a peça pra admirar o belo trabalho feito e a profundidade de seu conteúdo, é um conto mitico e como tal serve pra nos transmitir algum ensinamento profundo da nossa existência.





